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Caracterização e cronologia do fenômeno
O El Niño corresponde à fase de aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, integrante do ciclo ENSO (El Niño-Oscilação Sul). Em junho de 2026, órgãos federais brasileiros confirmaram a configuração do evento. Os modelos climáticos indicam probabilidade superior a 90% de manutenção do fenômeno até, pelo menos, o primeiro trimestre de 2027. Há probabilidade de 81% de que os desvios de temperatura da superfície do mar ultrapassem 2,0°C na área de referência entre outubro e dezembro de 2026. A partir do segundo trimestre de 2027, a tendência aponta para transição gradual às condições neutras, sem previsão consolidada de entrada na fase La Niña até o encerramento do período analisado.
Efeitos climáticos regionais
Os impactos apresentam distribuição assimétrica no território nacional, com padrões distintos por região e ao longo dos trimestres. A tabela 1 sintetiza as projeções consolidadas pelos órgãos de monitoramento climático para o período de julho de 2026 a dezembro de 2027.
Projeção climática por região do Brasil, julho de 2026 a dezembro de 2027
| Região |
Período de maior alteração |
Precipitação em relação à média histórica |
Temperatura média em relação à climatologia |
Riscos associados |
| Norte |
jul/2026 a mar/2027 |
abaixo da média |
acima da média |
redução de nível em cursos d’água, restrição à navegação, aumento da frequência de queimadas |
| Nordeste |
jul/2026 a abr/2027 |
abaixo da média |
acima da média |
déficit hídrico em culturas de sequeiro, redução de disponibilidade para pecuária |
| Sul |
set/2026 a fev/2027 |
acima da média |
próxima à média |
enchentes, deslizamentos, interdição de rodovias e terminais logísticos |
| Centro-Oeste |
ago/2026 a nov/2026 |
distribuição irregular |
acima da média |
deficiência hídrica no final do período seco, alteração no calendário de plantio |
| Sudeste |
out/2026 a jan/2027 |
próxima à média, com períodos curtos de desvio |
acima da média |
aumento da demanda por energia elétrica, pressão hídrica pontual |
Na maior parte do território, a normalização dos padrões de chuva deve ocorrer de forma mais acentuada a partir do segundo semestre de 2027. Temperaturas ligeiramente acima da média histórica podem persistir em parte das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Norte até o final do ano.
Impactos na agropecuária
Os efeitos sobre a produção variam conforme a cultura, a região e a fase do ciclo produtivo em coincidência com o período de maior alteração climática. A tabela 2 apresenta as projeções de produção para a safra 2026/2027, com comparação em relação à safra 2025/2026.
Projeção de produção agrícola, safra 2026/2027
| Cultura |
Produção estimada (milhões de toneladas) |
Variação em relação à safra 2025/2026 (%) |
Região com maior alteração de rendimento |
| Soja |
178,0 |
-1,4 |
Centro-Oeste e MATOPIBA |
| Milho (total) |
139,0 |
-1,9 |
Centro-Oeste (segunda safra) |
| Cana-de-açúcar |
675,0 |
+2,3 |
Sudeste e Centro-Oeste |
| Arroz (em casca) |
10,8 |
-0,7 |
Sul |
| Feijão (total) |
3,1 |
-3,2 |
Nordeste (terceira safra) |
Para a pecuária, a redução de disponibilidade hídrica e de massa forrageira no Norte e Nordeste, entre o segundo semestre de 2026 e o primeiro semestre de 2027, pode alterar o cronograma de terminação e abate de animais. No Sul, o excesso de precipitação aumenta o risco de ocorrência de doenças em rebanhos de corte e leite.
Setor elétrico e logística
Os reservatórios das bacias hidrelétricas registram níveis acima da média histórica no início do evento, em julho de 2026. A distribuição regional de chuvas altera o perfil de geração ao longo do período:
- Região Sul: maior volume de precipitação favorece a afluência aos reservatórios e a geração hidrelétrica entre a primavera de 2026 e o verão de 2027.
- Regiões Norte e Nordeste: redução de vazão nos rios reduz a geração hidráulica, com necessidade de acionamento complementar de usinas termelétricas a gás natural e carvão a partir do quarto trimestre de 2026, com permanência prevista até o primeiro semestre de 2027.
- Demanda nacional: elevação da temperatura média pode aumentar o consumo de energia elétrica em até 4% no verão de 2026/2027.
No sistema de bandeiras tarifárias, a bandeira amarela esteve em vigor em julho de 2026, com adicional de R$ 1,885 por 100 kWh consumidos. Há risco de acionamento de bandeiras mais onerosas entre outubro de 2026 e março de 2027, conforme a evolução dos níveis de reservatórios e da demanda.
Na logística, a redução do nível de rios das bacias Amazônica e Tocantins-Araguaia pode restringir a navegação em trechos utilizados para escoamento de grãos e insumos a partir de setembro de 2026. No Sul, o excesso de precipitação aumenta a probabilidade de interdição temporária de rodovias e terminais portuários entre novembro de 2026 e fevereiro de 2027.
Efeitos macroeconômicos e sociais
O Ministério da Fazenda revisou, em julho de 2026, as projeções de inflação e crescimento econômico para 2026 e 2027, com incorporação dos cenários climáticos. A tabela 3 sintetiza os indicadores e a contribuição estimada atribuída ao El Niño.
Projeções macroeconômicas com impacto do El Niño, 2026 e 2027
| Indicador |
Ano |
Projeção oficial (%) |
Contribuição estimada do El Niño (ponto percentual) |
| IPCA (variação anual) |
2026 |
5,1 |
+0,30 a +0,35 |
| IPCA (variação anual) |
2027 |
3,6 |
+0,15 a +0,40 |
| PIB (variação anual) |
2026 |
2,3 |
0,0 |
| PIB (variação anual) |
2027 |
2,5 |
-0,1 |
| Agropecuária dentro do PIB |
2026 |
1,8 |
-0,2 |
A pressão inflacionária concentra-se no grupo de alimentação no domicílio, com reflexos adicionais sobre preços de energia e custos logísticos. Fatores externos, como volatilidade dos preços de fertilizantes e combustíveis e variação da taxa de câmbio, podem amplificar ou atenuar os efeitos sobre custos de produção e preços ao consumidor.
No âmbito social, regiões com maior vulnerabilidade hídrica, especialmente no semiárido nordestino e em áreas da Amazônia, devem registrar aumento na demanda por medidas de apoio à produção e abastecimento de água entre o quarto trimestre de 2026 e o segundo trimestre de 2027.
Perspectivas até dezembro de 2027
A partir do segundo trimestre de 2027, a redução gradual da intensidade do fenômeno deve restabelecer padrões climáticos mais próximos da média histórica na maior parte do território. Os efeitos residuais sobre a safra 2027/2028 tendem a ser menores do que os observados na safra 2026/2027, com impacto decrescente sobre a inflação de alimentos e a geração hidrelétrica ao longo do segundo semestre de 2027. A recuperação de níveis de reservatórios e de padrões de navegação dependerá da distribuição de chuvas no primeiro semestre de 2027, com monitoramento mensal pelos órgãos competentes.
(*) Com informações das fontes: Instituto Nacional de Meteorologia, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais, Companhia Nacional de Abastecimento, Ministério da Fazenda, Banco Central do Brasil, Operador Nacional do Sistema Elétrico, Agência Nacional de Energia Elétrica, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, National Oceanic and Atmospheric Administration, Centro de Previsão Climática, instituições de pesquisa econômica e setorial.
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