"> Novo embate político de Alexandre de Moraes e Brasil x EUA

 

Opinião - 28/10/2026 - 07:31:18

 

Novo embate político de Alexandre de Moraes e Brasil x EUA

Lula é reeleito no segundo turno; Flávio Bolsonaro deixa o Brasil e segue para os Estados Unidos

 

Da Redação .

Foto(s): Reprodução TV Globo

 

Lula obteve 51,79% no segundo turno e revertou a vantagem de Flávio Bolsonaro (59.826.041 votos, 48,21%). No mesmo dia, Cristiano Zanin prorrogou a votação até as 19h; dois dias depois, Alexandre de Moraes mandou recolher os passaportes do senador, que seguiu para os EUA via Argentina e Equador.

Lula obteve 51,79% no segundo turno e revertou a vantagem de Flávio Bolsonaro (59.826.041 votos, 48,21%). No mesmo dia, Cristiano Zanin prorrogou a votação até as 19h; dois dias depois, Alexandre de Moraes mandou recolher os passaportes do senador, que seguiu para os EUA via Argentina e Equador.

O resultado eleitoral

No segundo turno das Eleições 2026, realizado em 25 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proclamou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reeleito presidente da República. O resultado foi anunciado às 21h08, com 97,69% das urnas totalizadas. Com 100% das seções apuradas, Lula somou 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro (PL) somou 59.826.041 votos, ou 48,21%. A diferença entre os dois candidatos foi de 4.430.191 votos. A posse está marcada para 5 de janeiro de 2027. O vice na chapa eleita é Geraldo Alckmin.

Trata-se do quarto mandato de Lula na Presidência e da primeira vez, desde a redemocratização, em que um candidato que ficou em segundo lugar no primeiro turno vence o segundo turno. No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro havia ficado em primeiro, com 56.104.268 votos (47,03% dos válidos), e Lula em segundo, com 53.876.617 votos (45,16%). Entre um turno e outro, Lula acrescentou 10.379.615 votos; Flávio Bolsonaro acrescentou 3.721.773.

O comparecimento ao segundo turno atingiu 128,2 milhões de eleitores, de um eleitorado de mais de 158 milhões. A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno (33.469.244 ausentes) para 19,2% no segundo (cerca de 30,4 milhões), uma redução de 1,88 ponto percentual. Cerca de 2,96 milhões de eleitores que não haviam votado no primeiro turno compareceram no segundo. Os votos em branco somaram 1.430.496 (1,12%) e os nulos 2.723.305 (2,12%), totalizando 4.153.801 votos inválidos, contra 5.975.047 no primeiro turno. A Justiça Eleitoral registrou 1.551 urnas substituídas. Lula venceu em 13 unidades federativas; Flávio Bolsonaro venceu em 13 e no Distrito Federal. O maior percentual de Lula por estado foi no Piauí; o de Flávio Bolsonaro, em Roraima. O município de São Paulo reduziu a abstenção em 275.975 eleitores em relação ao primeiro turno, a maior redução absoluta do país.

A decisão monocrática de Zanin

No dia da votação, às 17h, horário de fechamento das seções, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), proferiu decisão monocrática na Reclamação 101.673, apresentada pela coligação de Lula, determinando a prorrogação da votação até as 19h em todo o território nacional. A justificativa apresentada foi a existência de dificuldades de deslocamento de eleitores em diversas regiões, associadas a problemas no transporte público e a chuvas.

Diante da informação de que diversas seções já haviam sido encerradas às 17h, Zanin editou novo despacho restringindo a prorrogação aos locais onde as urnas não haviam sido fechadas. O TSE suspendeu a totalização dos votos em todo o país após a decisão. O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo informou que tomou conhecimento da medida pela imprensa, por volta das 17h, e contatou o TSE por telefone. Ministros do TSE se reuniram a portas fechadas no mesmo dia.

A medida provocou críticas de integrantes da campanha de Flávio Bolsonaro e de aliados, que questionaram a competência do STF para alterar o horário eleitoral. O senador Jorge Seif (PL-SC) anunciou, no dia seguinte, que apresentaria pedido de impeachment contra Zanin.

A ordem de Moraes e a saída do país

No domingo (25), após a confirmação da derrota, Flávio Bolsonaro fez pronunciamento em Brasília no qual não reconheceu o resultado e afirmou que buscaria a anulação do pleito. A Polícia Federal alertou o STF, ainda no domingo, sobre o risco de o senador deixar o país.

Na segunda-feira (26), o ministro Alexandre de Moraes, do STF, atendeu a pedido da Polícia Federal e determinou que Flávio Bolsonaro entregasse seus passaportes no prazo de 24 horas. A medida está vinculada a inquérito de relatoria de Moraes que apura a prática de lavagem de dinheiro e evasão de divisas pelo senador e pelo advogado Willer Tomaz. Flávio Bolsonaro publicou vídeo em rede social na mesma data, no qual afirmou que a proibição de viajar configurava tentativa de intimidação e que entregaria os documentos.

O prazo terminou às 11h de terça-feira (27), sem que os passaportes fossem apresentados. A Polícia Federal cancelou, em seus sistemas, o passaporte comum e o passaporte diplomático do senador. Flávio Bolsonaro detém cidadania italiana desde 2023, o que lhe confere passaporte de terceiro país, não cancelável por autoridades brasileiras.

Na terça-feira, o jornal argentino Infobae noticiou que o senador embarcaria em voo privado em Puerto Iguazú. Uma comitiva de três veículos saiu da residência de Flávio em Brasília; o veículo do meio, que costuma transportá-lo, foi aberto e se mostrou vazio. O coordenador da campanha, Rogério Marinho, declarou à imprensa que não sabia o paradeiro do candidato. O governo brasileiro acionou as autoridades argentinas para apurar o deslocamento.

A rota do jatinho e a empresa proprietária

As autoridades de imigração argentinas confirmaram que Flávio Bolsonaro ingressou na Argentina às 22h50 de terça-feira (27), horário de Brasília (01h50 de quarta-feira, 28, em Greenwich), pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu (Brasil) a Puerto Iguazú (Argentina), próximo à tríplice fronteira. O registro argentino indica entrada com documento de viagem válido e sem impedimento legal. A Polícia Federal brasileira informou não possuir registro oficial de saída do senador do país. Acompanhavam Flávio Bolsonaro sua esposa, Fernanda, e suas duas filhas.

Cronologia do voo (horário de Brasília), conforme plataformas de monitoramento aéreo Flightradar24 e FlightAware e autoridades argentinas:

Data Horário Evento Local
27/10 22h50 Ingresso na Argentina Ponte Tancredo Neves, Foz do Iguaçu/Puerto Iguazú
28/10 00h21 Decolagem Aeroporto de Puerto Iguazú, Argentina
28/10 05h46 Pouso para reabastecimento Aeroporto de Guayaquil, Equador
28/10 06h22 Nova decolagem Guayaquil, Equador
28/10 10h40 Pouso Aeroporto executivo Opa-Locka, Miami, Flórida (EUA)

A aeronave é um jato executivo Gulfstream G400, de matrícula argentina LV-JQW, fabricado em 2004, com capacidade para até 13 passageiros. Pertence à empresa Baires Fly S.A., companhia argentina de aviação executiva sediada em Buenos Aires, de propriedade formal do empresário Luis Grande. A empresa é citada pela promotoria argentina em investigação sobre desvios na ANDIS (Agência Nacional de Discapacidad), e mantém vínculo com o empresário Sergio Daniel Mastropietro, investigado no mesmo caso. O voo não sobrevoou o espaço aéreo brasileiro; a rota registrada passou por Paraguai, Bolívia e Peru. Cerca de 927 mil usuários acompanharam a trajetória da aeronave pela plataforma Flightradar24, segundo registro da AFP.

Situação nos Estados Unidos

Flávio Bolsonaro adentrou os Estados Unidos utilizando o passaporte diplomático já cancelado, conforme registros do U.S. Customs and Border Protection (CBP). O Departamento de Segurança Interna americano concedeu autorização de permanência no país por um ano. O Departamento de Estado confirmou a emissão de vistos para Flávio Bolsonaro e sua família. Integrantes do entorno do senador e um advogado ligado ao governo de Donald Trump afirmaram que o asilo político foi autorizado. O Departamento de Estado, por sua vez, informou que a emissão de visto e a permissão de entrada não equivalem à concessão de asilo político, que depende de prova de perseguição política.

Flávio Bolsonaro declarou, por meio de aliados, ser alvo de perseguição política. O deputado Alfredo Gaspar (PL), vice na chapa presidencial derrotada, utilizou o termo perseguição implacável em referência ao tratamento dado ao senador. O governador eleito do Paraná, Sergio Moro (PL), classificou a saída como compreensível e questionou a ordem de entrega dos passaportes.

No campo jurídico, deputados do PT e do PSOL pediram a Moraes a prisão preventiva de Flávio Bolsonaro e a cassação de seu mandato no Senado, além de alerta da Interpol. O senador perderá o foro privilegiado em fevereiro de 2027, ao fim de seu mandato, após 24 anos em cargos parlamentares. Além do inquérito de Moraes, Flávio Bolsonaro é investigado no caso Dark Horse, de relatoria do ministro André Mendonça, que apura o financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro, com denúncias de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, foi condenado pela Justiça brasileira.

Contexto político e econômico

A reversão do resultado entre os turnos coincide com a redução da abstenção e dos votos inválidos. Levantamento com base nos dados do TSE mostra que Lula obteve mais votos que Flávio Bolsonaro nas 20 cidades com maior queda absoluta da abstenção entre os turnos, entre elas a cidade de São Paulo.

No plano econômico, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou IPCA de 0,82% em setembro de 2026, com acumulado no ano de 3,95% e taxa em 12 meses de 4,58%, acima do teto da meta de inflação de 4,5%. O IPCA-15 de outubro ficou em 0,32%. O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic para 13,75% ao ano em 16 de setembro, quinto corte consecutivo e patamar mais baixo desde março de 2025. O Produto Interno Bruto cresceu 2,0% no segundo trimestre de 2026, ante 1,8% no primeiro trimestre; projeção do Instituto Feral de Estudos Orçamentários (IFI) do Senado indica crescimento real de 2,0% em 2026 e de 1,8% em 2027. A taxa de desocupação gira em torno de 5%. A dívida pública bruta corresponde a cerca de 82,6% do PIB.

No plano externo, a vitória de Lula foi comemorada por governos de esquerda da América Latina. A saída de Flávio Bolsonaro ocorre com o governo de Donald Trump nos Estados Unidos e o de Javier Milei na Argentina, país de onde decolou o jato. Análise de instituto econômico japonês aponta expansão da representação da oposição no Congresso brasileiro, o que deve limitar a base de apoio do quarto mandato. O episódio da saída do senador já provoca desgaste nas relações entre Brasília e Washington, segundo avaliação de integrantes do Palácio do Planalto.

CARTA A NAÇÃO BRASILEIRA

Leia a carta de Bolsonaro na íntegra

(*) Com informações das fontes: Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Supremo Tribunal Federal (STF), Câmara dos Deputados, Senado Federal, Agência Brasil, G1, CNN Brasil, Metrópoles, France 24 (AFP), Infobae, Perfil, O Globo, Flightradar24, FlightAware, IBGE, Banco Central (Copom), Instituto Feral de Estudos Orçamentários (IFI) do Senado, Xinhua, R7.

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